Há algum tempo venho me perguntando: Como sobrevivi?
Essa pergunta de tempos em tempos me assombra, e nesse início
de ano ela novamente me visitou, mas agora as circunstâncias a fizeram retornar
com toda a sua fúria. E eu volto a indagar a mim mesma: como sobrevivi? Como todos
nós sobrevivemos?
Como passamos ilesos pela nossa juventude? Por aquela época
feroz, dominada pelo desejo intenso de viver todas as possibilidades e aventuras,
pelo anseio ferrenho de não deixar a vida passar sem estar presente, sem se
fazer presente. Rodeados pelos amigos em festas e baladas, completamente expostos
na terra sem lei que são as tão esperadas noites de imensurável diversão.
Quando recordo momentos da minha vida, passados há quinze,
vinte anos, não consigo conter o sorriso recheado de contentamento e nostalgia.
A saudade senta-se a meu lado e juntas rimos das mais variadas situações
vividas dentre constrangimentos, alegrias e sandices praticadas naquele tempo
em que a imaturidade ou mesmo a fé em nós mesmos nos angariava super poderes,
capazes de nos proteger do tempo e do espaço, livrando-nos de quaisquer
infortúnios.
Hoje, logo após o riso, eu e ela - a saudade - não
conseguimos conter sentimentos opostos àquela alegria. A tristeza e o medo nos assolam.
Mais uma vez indago: como sobrevivi? Como passei incólume por aquela juventude?
E quando olho para meus filhos, hoje ainda com cinco e três anos de idade, o
medo se instala e torna turvo o futuro. Se de um lado pergunto-me como sobrevivemos,
de outro não posso deixar de formular a mesma pergunta, agora dirigida a um
futuro obscuro e temeroso. Um futuro tornado cada vez mais temido e que se
mostra incrustrado por obstáculos e armadilhas cada vez mais astutas.
Se o futuro a Deus pertence, rogo-Lhe que olhe por nossos
filhos. Que dê a eles a mão e o direcionamento necessários quando a razão lhes faltar,
que os protejam quando o mal se apresentar, que os levantem quando caírem e que
os impeçam de sucumbir quando se atirem à vida. Que eles também sobrevivam.
A pergunta, secamente
formulada pelo filho na hora do jantar, foi como um soco certeiro na boca do
estômago. O pai se engasgou, soltou o garfo, já na altura da boca, no prato. O
barulho afiado da queda do talher sequer fez o filho piscar, ao contrário, ele manteve
o olhar fixo no pai, de forma inquisitorial, ávido por colher a resposta a sua
pergunta.
O pai perdeu o fôlego,
a cor e o apetite, mas ainda assim enfiou uma garfada de macarronada na boca
fingindo naturalidade. Recuparado o fôlego olhou friamente para o filho por
cima dos óculos, e com o canto do olhar fitou a esposa, que, enquanto secava a
louça, tratou logo de fingir não saber do sucedido, como quem diz “se vire”.
Não sabia como abordar
a questão. Decidiu, então, por ganhar tempo e ordenou:
- Filho, coma. Depois a
gente conversa.
A refeição se seguiu no
mais absoluto silêncio. As almôndegas, antes macias e saborosas, viraram pedras
no estômago do pai. Já o filho não teve problemas em acabar de jantar, a comida
estava boa e ainda haveria a sobremesa. O pai dispensou o pudim.
Findo o jantar a
família se dirigiu à sala. O pai muito rapidamente ligou a televisão no canal
de desenhos, mesmo sabendo que a hora já passara do horário estipulado para a
TV. Sentou-se no sofá com um livro nas mãos. Tudo na tentativa de driblar a
memória do filho, fazê-lo esquecer da pergunta. Foi em vão.
O filho, sentado ao
lado do pai, se levantou, se dirigiu até a TV e a desligou. Voltou e, de pé,
com sua altura de 8 anos, olhou novamente para o pai e disse-lhe:
- Pai, já jantamos. Podemos
conversar.
Agora o pai perdeu a
respiração. Ficou vermelho e começou a suar na já ampla testa. A mãe saiu da
sala com a desculpa de trocar as fraldas do bebê. Ele ficou ali, sentado,
acuado pelo filho e amordaçado pela maior de todas as dúvidas que já teve.
“Conto ou não conto, eis a questão”.
Decidiu pela verdade. O
problema é que o pai não era de rodeios e embromações. Era direto e objetivo,
quase grosso. Mas não queria ferir o coração do filho com a verdade nua e crua.
Precisaria prepará-lo para a grande descoberta da infância. Tentou de alguma
forma ser um pouco ameno e começou a explicar coisas como o que era o espírito
de Natal. Prosseguiu falando de lendas, estórias que os avós dos nossos avós
contavam, e assim por diante. Mas ele não tinha muito jeito para esse falatório
todo. Não é a toa que o filho logo o interrompeu fazendo-o restabelecer o foco:
- Paiêeeee..... fala
logo: Papai Noel existe?
O pai calou. Engoliu
seco, ajeitou os óculos sobre o nariz, pousou as mãos sobre as pernas e criando
coragem disse:
- Sim.... e não!
- Sim e não? Como
assim? Existe ou não?
Ele tentou resistir,
Deus sabe, mas não adiantou. Decidiu por abrir o jogo:
- Tudo bem filho, Papai
Noel não existe. É só uma representação do espírito de Natal.
O filho, aliviado, abre
os braços na altura dos ombros e os solta com força nas pernas produzindo um
estalo ao mesmo tempo em que grita:
- Arre.... até que enfim!
Custava falar logo?
O pai sem entender absolutamente nada não
conseguiu deixar de perguntar:
- Você não está triste
filho? Por saber que Papai Noel não existe?
O filho responde:
- Mais ou menos, pai.
Mais ou menos!
O pai retruca:
- Como assim?
- Um pouco triste
fiquei, mas queria mesmo saber se ele existia para saber para quem eu devo
pedir um i-pad de presente. Agora sei que é pra você mesmo. Então pai, me dá um
i-pad... com 3G?
A reação do pai foi um
sentimento triplo: alívio por ver que o filho não sofria, surpresa por ver a
ausência de desapontamento e por fim orgulho por perceber que o filho herdara a
mesma objetividade, marca registrada sua.
Após todo aquele
momento de stress, seguido por um alívio em razão do desfecho não trágico,
concentrou-se apenas em contemplar o filho e percebeu ser ele o maior de todos
os presentes da vida, mesmo sem a intervenção do Bom Velhinho.
Mas ainda assim o filho
não ganhará o i-pad... ainda mais com 3G.
As quatro anos de idade meu filho mais velho mudou de
escola. Até está idade frequentava uma escola adorável, em outro bairro da
cidade. Professoras dedicadas, ambiente agradável e uma coordenação impecável.
Eu adorava a escola quase tanto quanto ele, pois ele realmente a amava.
Começou a frequentá-la com dois anos. Portanto, ficou lá
por outros dois. Embora não pareça muito tempo, certamente muita coisa
aconteceu em sua vida nesse curto período, e entre elas meu pequeno conheceu
seu primeiro amor: uma doce menininha chamada Fernanda, a Nanda.
Era uma graça, claro que não tanto quanto ele, mas era
formosinha. Seu amor pela garotinha era recíproco. Certa vez deu-lhe um anel de
plástico de presente,parecido
com aqueles que vinham em sacos de pipoca doce. Ela se encantou. Mulher gosta de joia! Ela não o tirou do
dedo por mais ou menos duas semanas. Depois disso não sei bem o que aconteceu,
pois não mais exibiu o apetrecho. Talvez o tenha engolido e nessa hipótese
certamente a mãe não deve ter se interessado em resgatar o badulaque.
Em retribuição ao presente ela lhe deu um ioiô. O brinquedo
também sumiu depois de um tempo. Não, meu filho não o engoliu, era muito grande
para isso e especialmente para o passo seguinte. Era verde, do Ben 10. Ele
ainda não conhecia o personagem, mas sabia precisamente quem o lhe dera, a doce
Nanda, e isso o deixava muito feliz.
Findo o ano e as férias escolares de verão, iniciava-se a
nova experiência de meu menino na outra escola. Estrearia no Colegião. Confesso
que me surpreendi, pois adorou a escola nova, quase tanto quanto a antiga. Era
grande, colorida, alegre.
Mas as lembranças do amor não abandonam facilmente um
homem e, mesmo que eu lutasse para libertá-lo, as memórias de Fernanda
persistiam incrustadas em seu ingênuo coração.
Já algumas semanas depois, voltávamos do Colegião e meu
pequeno se mostrava alegre, radiante com os novos amigos e em especial com
outra doce menina, Laura. Bem que minha mãe já dizia que nada nessa vida é
insubstituível. Nisso Laura veio a calhar.
Animada pelo progresso sentimental de meu pequenino, certo
dia, regressando da escola, tratei de perguntar-lhe, muito discretamente, sobre
Laura. Os olhos brilhavam entusiasmo enquanto ele descrevia seus dotes e
qualidades. Mas repentinamente, como em um arroubo de melancolia, seus olhos se
apagaram, se acinzentaram. Estávamos no carro e pelo espelho retrovisor
pareceu-me uma lágrima de tristeza a escorrer-lhe pelos olhos. Olhei melhor,
quase bati o carro, mas percebi, para minha felicidade, que não passava de um
pequeno feixe de luz em sua face.
Embora não chorasse, é certo que ele sentia falta da
garota. Lentamente levantou a cabecinha fitando-me, de trás do carro, pelo
espelho e desabafou:
- É mamãe, a Fernanda não mudou de escola. Que pena! Que
pena que não deu tempo!
“Não deu tempo? Não deu tempo de que?”, pensei. Curiosa, verbalizei
a pergunta e ele, para meu desespero, completou o desabafo anterior:
- Não deu tempo da gente se casar, mamãe!
Quase enfartei. Senti um formigamento no braço e uma
trincada no peito. Meus olhos ficaram turvos e por uma fração de segundo
percebi que em algum momento no futuro próximo
aquele serzinho não será mais meu. Será? Perguntei-me, afinal ainda só
tem quatro anos.
Meio sem fôlego, engasgada pela saliva, procuro avidamente
o que lhe dizer. Sim, pois o momento não poderia ficar sem uma resposta. Mas
dizer o quê? Antes tivesse pensado mais e melhor, pois o calor e o desconforto
daquele instante me fizeram atirar-lhe as seguintes palavras:
- Casar com a Fernanda pra quê? Você pode se casar com a
mamãe!
“Nooossa, que idiota!”, pensei. Cheguei a corar diante do
tamanho despautério. Ainda bem que ele ainda não percebe esse tipo reação.
Contudo, há coisas que a vida trata de ensinar ela mesma, sem as intervenções
nada inteligentes das mães. Com lucidez e serenidade meu filho retruca, quase
me repreendendo:
- Mas mamãe, eu não posso me casar com você porque você já
tem um papai!
Faz sentido. De fato já sou casada com o pai dele. Mas não
desisto de meu filho. Jamais poderia perder a batalha para a minha primeira
adversária, Fernanda. Lembro-me de Laura e ensino a meu filho, desta vez muito
mais sabiamente, que a fila anda e digo-lhe:
A semana fora quente, colorida e
ensolarada. A previsão do tempo não revelava o mesmo padrão para o iminente
final de semana. De regra tal fato não chamaria nem de longe sua atenção,
afinal mais de trinta anos vivendo na imprevisível Curitiba tornaram essa
mudança de tempo comum.
Mas nesse final de semana em particular o tempo a
atormentava. É que o marido decidira levar
o filho de 7 anos para acampar... no Pico do Marumbi.
Tentou dissuadi-lo da ideia que lhe
parecia de jerico. Fora em vão. Ele revelou, para surpresa da esposa, o improvável: podia ser
mais teimoso que ela. Embora ele dissesse que a atitude não revelasse teimosia
e sim determinação, era teimosia sim. E isso ela teimava em afirmar.
Enfim chegou o sábado. Dia quente e
abafado. O bafo do ar era como o sopro de Deus avisando a todos que a chuva
viria. Pois sequer isso foi eficiente para afastar a tal “determinação” do
marido. E, bem da verdade, sequer poderia ser diferente ante a excitação do
menino, já cuidadosamente trajado de escoteiro, cantil a tiracolo, lanterna em
punho e vários pacotes de guloseimas ordinariamente proibidas enfiadas na
mochila. E assim foram os dois desbravadores rumo àquela que se apresentava
como uma desastrosa aventura.
Sempre achei que toda mãe fosse um
pouco vidente, capaz de prever o futuro. Se estiver errada é porque talvez
todas sejam meio bruxas, capazes de influenciar o futuro. Assim digo porque
dito e feito. Choveu, e choveu muito. São Pedro resolvera fazer a faxina do
ano! Ela não conseguia parar de pensar no entrevero que estaria sendo a
aventura de seus homens. Já o marido não conseguia parar de tentar encontrar uma
desculpa, justificativa ou qualquer outra coisa razoável para evitar o que
seria o inevitável comentário: “eu te disse!” Ele não poderia dar o braço a
torcer, tudo menos isso. Claro que não encontrou! A esposa venceria.
Mas como disse, tudo menos vencido.
Tratou de ter uma conversa de homem com o filho. Olhou-lhe nos olhos, e,
esforçando-se para diferenciar a mentira da necessidade disse-lhe:
- Filho, não
vamos contar à mamães que choveu, tudo bem? Não precisa dizer nada, só não
vamos contar que choveu!
O filho, cúmplice nato do pai, pareceu entender e de
imediato e com entusiasmo concordou, selando uma aliança que certamente
traduziria no futuro a base de uma relação duradoura e recíproca de amor e
devoção paternal.
Mas algumas coisas na vida têm a perna
curta.
Chegaram em casa sorrateiros e sem a
esposa notar jogaram a roupa molhada no tanque na esperança velada de que somente
a diarista no dia seguinte visse. Mas as mães têm olhos de águia. Enxergam
tudo. Claro que ela viu a roupa entulhada, molhada e coberta de lama. Torceu o
nariz, rodeou o filho, fez-lhe um carinho sobre os cabelos e dirigiu-lhe
algumas perguntas inocentes, todas prontamente respondidas com detalhes
minuciosos. Em seguida e repentinamente indagou-lhe, de forma firme mas
despretensiosa:
- Filho, choveu no acampamento?
Ao contrário da reação do menino
para o interrogatório anterior, para esta indagação não só ficou calado, como
também imóvel. Com o pescoço duro, movia somente os olhos, tentando com o canto
do olho avistar seu cúmplice, tal como reagiria o prisioneiro capturado que
anseia pelo resgate improvável. Contudo, o resgate não veio!
O filho, sem outra alternativa, mas
decidido a não entregar o aliado, rendeu-se a pergunta da mãe e, mostrando que
a mentira tanto pode diferir como se confundir com a necessidade, disse-lhe:
- Não,
mamãe, não choveu, a gente só ficou um pouco encharcado.
Ela não pode conter o riso. Não só
pela graça do momento que revelava a criatividade do pequeno e a lealdade para com
o pai, mas também porque ao final ela poderia dizer ao marido: Eu te disse!
Minha amiga, não sei se foi assim, mas
foi assim que vi acontecer!