terça-feira, 21 de maio de 2013

Pelos na mão




Antes que alguém possa pensar coisa diversa, antecipo-me e respondo: Não, meus filhos ainda não atingiram a adolescência. Estamos ainda na primeira infância e nos fatos recheados de graça e da adorável inocência.
Francisco está com 5 anos e no Primeiro Ano do ensino fundamental. Dentre os importantes assuntos curriculares a turma está estudando sobre o pelo dos animais. Já avançaram bastante no assunto e já descobriram que vários bichos não têm pelos, como os passarinhos e os peixes. E em relação aos pelos as crianças já sabem que há várias cores e tamanhos, como os dos gatos, cavalos e cachorros.
Mas uma das mais interessantes surpresas dessa linha de pesquisa foi a descoberta de que os humanos, categoria que inclui não só eles mas os pais e as mães (os avôs, as avós e os primos, como bem observado por alguns coleguinhas), também são dotados de pelos. A descoberta veio durante a aula no momento em que a professora conduzia a pesquisa através da observação de figuras, retratos e do próprio corpo dos alunos.
Inegável como é interessante o momento da descoberta da criança, mas mais interessante é como a ingenuidade dessa descoberta pode afetar nossa mais íntima intimidade. É que lá pelo meio da tal pesquisa um coleguinha, para agregar à experiência, informou aos demais que o pai tinha tanto pelo que até tinha um bigode embaixo do nariz. Prontamente a outra coleguinha, no mesmo sentido da informação anterior do colega, participou aos alunos que a mãe, tal qual o pai do outro, também tinha um bigodão, mas que de vez em quando ela o depilava. Prosseguindo, um terceiro aluno, avançando nas descobertas, e logo após essa última informação, contou à turma que seu pai também depilava, mas que não era apenas o bigode.
A professora não quis me revelar quais crianças passaram tais informações e tampouco as partes do corpo depiladas. Prontamente fiz um retrospecto da minha vida após o nascimento de meus filhos buscando fatos depilatórios comprometedores meus e de meu marido. Bem... não tenho bigode e meu marido não se depila, pelos menos não a perna... e tampouco outras partes. Será que fui objeto de estudo da turma? O medo estampado na minha cara revelou à professora a minha temeridade e ela, solidária, me acalmou afirmando que o Francisco nada falara da mãe ou do pai. Ufa!
Mas insisti e perguntei se meu filho havia de alguma forma participado da aula. Então ela contou que uma das mais interessantes curiosidades manifestadas pelos alunos  foi o fato do ser humano não ter pelos na palma da mão e que esse fato gerou muita discussão.
Na hora não pude deixar de lembrar como a possibilidade de existência de pelos nas mãos pôde, tempos atrás, se mostrar controversa e temerosa para os adolescentes. Mas logo, me recuperando do breve devaneio, conclui que decididamente vivemos em outra época. Voltei a dirigir a atenção à professora que relatou as mais divertidas respostas. Contou-me que um dos alunos acreditava que a ausência de pelos nas mãos era para que os copos de vidro não escorregassem. Achei muito engraçado, mas confesso que a melhor de todas as respostas que me foram reveladas veio de meu filho, segundo o qual não temos pelos nas palmas das mãos para não sentir cócegas quando a fechamos!!

terça-feira, 26 de março de 2013

O Significado da Páscoa


- Francisco, meu querido, você já aprendeu o que se celebra na Páscoa?
Como ressurreição é uma palavra deveras complicada, tal qual “reveion”, que ninguém sabe ao certo como se soletra, o garoto contornou a dificuldade e respondeu:
- Páscoa, mamãe, é quando Jesus viveu de novo.
Após sua resposta sobreveio o mais absoluto silêncio que retrata o desenvolvimento de um grande raciocínio. Francisco, elevou os olhos, buscando respostas em sua pesquisa mental e perguntou:
- Mamãe, todo mundo vive de novo como Jesus viveu?
Hesito, repasso rapidamente minhas convicções religiosas, encho-me de dúvidas e, ao final de uns três ou quatro segundos de intensa reflexão, decidindo não ser esta a melhor hora para uma análise crítica teológica, acabo optando por uma resposta mais simples, que na verdade de simples não tem nada. Digo-lhe:
-Mais ou menos, Francisco. Todos nós vamos viver de novo, mas será lá no céu com Jesus e apenas depois que morrermos!
Engoli seco e esperei o efeito de minha afirmação. Impressionante como a morte é um assunto complicado. Verdadeiro tabu. Certa de que árduas perguntas viriam de meu filho, abordando a mortalidade humana bem como o verdadeiro paradeiro de Deus e o correto endereço do céu, preparei-me para o que pareceria se traduzir em uma verdadeira batalha argumentativa.
Olhei para os olhos vorazes de curiosidade de meu filho e esperei pelas perguntas que viriam. Poderiam ser infinitas, e eu não tenho a resposta para nem meia dúzia delas.  Pensei: é claro que ele vai querer saber exatamente onde fica o céu, ou ainda como pode alguém morrer e viver de novo! Socorro!
Confesso que me surpreendi com o rumo que a conversa tomou. Francisco abordou outro ângulo da questão e disse:
- Mamãe, Jesus viveu de novo e nunca mais morreu?
Confirmei a resposta, quem não o faria? Então ele solta essa:
- Mas então ele fica por aí voando, meio invisível? Como o Batman?
Uou!!! Da próxima vez vou me contentar a perguntá-lo o que ele comeu no lanche, será mais fácil.

 

 

 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Santa Maria: Rogai por nós





Há algum tempo venho me perguntando: Como sobrevivi?
Essa pergunta de tempos em tempos me assombra, e nesse início de ano ela novamente me visitou, mas agora as circunstâncias a fizeram retornar com toda a sua fúria. E eu volto a indagar a mim mesma: como sobrevivi? Como todos nós sobrevivemos?
Como passamos ilesos pela nossa juventude? Por aquela época feroz, dominada pelo desejo intenso de viver todas as possibilidades e aventuras, pelo anseio ferrenho de não deixar a vida passar sem estar presente, sem se fazer presente. Rodeados pelos amigos em festas e baladas, completamente expostos na terra sem lei que são as tão esperadas noites de imensurável diversão.
Quando recordo momentos da minha vida, passados há quinze, vinte anos, não consigo conter o sorriso recheado de contentamento e nostalgia. A saudade senta-se a meu lado e juntas rimos das mais variadas situações vividas dentre constrangimentos, alegrias e sandices praticadas naquele tempo em que a imaturidade ou mesmo a fé em nós mesmos nos angariava super poderes, capazes de nos proteger do tempo e do espaço, livrando-nos de quaisquer infortúnios.
Hoje, logo após o riso, eu e ela - a saudade - não conseguimos conter sentimentos opostos àquela alegria. A tristeza e o medo nos assolam. Mais uma vez indago: como sobrevivi? Como passei incólume por aquela juventude? E quando olho para meus filhos, hoje ainda com cinco e três anos de idade, o medo se instala e torna turvo o futuro. Se de um lado pergunto-me como sobrevivemos, de outro não posso deixar de formular a mesma pergunta, agora dirigida a um futuro obscuro e temeroso. Um futuro tornado cada vez mais temido e que se mostra incrustrado por obstáculos e armadilhas cada vez mais astutas.
Se o futuro a Deus pertence, rogo-Lhe que olhe por nossos filhos. Que dê a eles a mão e o direcionamento necessários quando a razão lhes faltar, que os protejam quando o mal se apresentar, que os levantem quando caírem e que os impeçam de sucumbir quando se atirem à vida. Que eles também sobrevivam.
Amém.                                                          
                                                              

domingo, 16 de dezembro de 2012

Papai Noel Existe?


 - Pai...Papai Noel existe?
A pergunta, secamente formulada pelo filho na hora do jantar, foi como um soco certeiro na boca do estômago. O pai se engasgou, soltou o garfo, já na altura da boca, no prato. O barulho afiado da queda do talher sequer fez o filho piscar, ao contrário, ele manteve o olhar fixo no pai, de forma inquisitorial, ávido por colher a resposta a sua pergunta.
O pai perdeu o fôlego, a cor e o apetite, mas ainda assim enfiou uma garfada de macarronada na boca fingindo naturalidade. Recuparado o fôlego olhou friamente para o filho por cima dos óculos, e com o canto do olhar fitou a esposa, que, enquanto secava a louça, tratou logo de fingir não saber do sucedido, como quem diz “se vire”.
Não sabia como abordar a questão. Decidiu, então, por ganhar tempo e ordenou:  
- Filho, coma. Depois a gente conversa.
A refeição se seguiu no mais absoluto silêncio. As almôndegas, antes macias e saborosas, viraram pedras no estômago do pai. Já o filho não teve problemas em acabar de jantar, a comida estava boa e ainda haveria a sobremesa. O pai dispensou o pudim.
Findo o jantar a família se dirigiu à sala. O pai muito rapidamente ligou a televisão no canal de desenhos, mesmo sabendo que a hora já passara do horário estipulado para a TV. Sentou-se no sofá com um livro nas mãos. Tudo na tentativa de driblar a memória do filho, fazê-lo esquecer da pergunta. Foi em vão.
O filho, sentado ao lado do pai, se levantou, se dirigiu até a TV e a desligou. Voltou e, de pé, com sua altura de 8 anos, olhou novamente para o pai e disse-lhe:
- Pai, já jantamos. Podemos conversar.
Agora o pai perdeu a respiração. Ficou vermelho e começou a suar na já ampla testa. A mãe saiu da sala com a desculpa de trocar as fraldas do bebê. Ele ficou ali, sentado, acuado pelo filho e amordaçado pela maior de todas as dúvidas que já teve. “Conto ou não conto, eis a questão”.
Decidiu pela verdade. O problema é que o pai não era de rodeios e embromações. Era direto e objetivo, quase grosso. Mas não queria ferir o coração do filho com a verdade nua e crua. Precisaria prepará-lo para a grande descoberta da infância. Tentou de alguma forma ser um pouco ameno e começou a explicar coisas como o que era o espírito de Natal. Prosseguiu falando de lendas, estórias que os avós dos nossos avós contavam, e assim por diante. Mas ele não tinha muito jeito para esse falatório todo. Não é a toa que o filho logo o interrompeu fazendo-o restabelecer o foco:
- Paiêeeee..... fala logo: Papai Noel existe?
O pai calou. Engoliu seco, ajeitou os óculos sobre o nariz, pousou as mãos sobre as pernas e criando coragem disse:
- Sim.... e não!
- Sim e não? Como assim? Existe ou não?
Ele tentou resistir, Deus sabe, mas não adiantou. Decidiu por abrir o jogo:
- Tudo bem filho, Papai Noel não existe. É só uma representação do espírito de Natal.
O filho, aliviado, abre os braços na altura dos ombros e os solta com força nas pernas produzindo um estalo ao mesmo tempo em que grita:
- Arre.... até que enfim! Custava falar logo?
 O pai sem entender absolutamente nada não conseguiu deixar de perguntar:
- Você não está triste filho? Por saber que Papai Noel não existe?
O filho responde:
- Mais ou menos, pai. Mais ou menos!
O pai retruca:
- Como assim?
- Um pouco triste fiquei, mas queria mesmo saber se ele existia para saber para quem eu devo pedir um i-pad de presente. Agora sei que é pra você mesmo. Então pai, me dá um i-pad... com 3G?
A reação do pai foi um sentimento triplo: alívio por ver que o filho não sofria, surpresa por ver a ausência de desapontamento e por fim orgulho por perceber que o filho herdara a mesma objetividade, marca registrada sua.
Após todo aquele momento de stress, seguido por um alívio em razão do desfecho não trágico, concentrou-se apenas em contemplar o filho e percebeu ser ele o maior de todos os presentes da vida, mesmo sem a intervenção do Bom Velhinho.
Mas ainda assim o filho não ganhará o i-pad... ainda mais com 3G.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Primeiro Amor


As quatro anos de idade meu filho mais velho mudou de escola. Até está idade frequentava uma escola adorável, em outro bairro da cidade. Professoras dedicadas, ambiente agradável e uma coordenação impecável. Eu adorava a escola quase tanto quanto ele, pois ele realmente a amava.
Começou a frequentá-la com dois anos. Portanto, ficou lá por outros dois. Embora não pareça muito tempo, certamente muita coisa aconteceu em sua vida nesse curto período, e entre elas meu pequeno conheceu seu primeiro amor: uma doce menininha chamada Fernanda, a Nanda.
Era uma graça, claro que não tanto quanto ele, mas era formosinha. Seu amor pela garotinha era recíproco. Certa vez deu-lhe um anel de plástico de presente, parecido com aqueles que vinham em sacos de pipoca doce. Ela se encantou. Mulher gosta de joia! Ela não o tirou do dedo por mais ou menos duas semanas. Depois disso não sei bem o que aconteceu, pois não mais exibiu o apetrecho. Talvez o tenha engolido e nessa hipótese certamente a mãe não deve ter se interessado em resgatar o badulaque.
Em retribuição ao presente ela lhe deu um ioiô. O brinquedo também sumiu depois de um tempo. Não, meu filho não o engoliu, era muito grande para isso e especialmente para o passo seguinte. Era verde, do Ben 10. Ele ainda não conhecia o personagem, mas sabia precisamente quem o lhe dera, a doce Nanda, e isso o deixava muito feliz.
Findo o ano e as férias escolares de verão, iniciava-se a nova experiência de meu menino na outra escola. Estrearia no Colegião. Confesso que me surpreendi, pois adorou a escola nova, quase tanto quanto a antiga. Era grande, colorida, alegre.
Mas as lembranças do amor não abandonam facilmente um homem e, mesmo que eu lutasse para libertá-lo, as memórias de Fernanda persistiam incrustadas em seu ingênuo coração.
Já algumas semanas depois, voltávamos do Colegião e meu pequeno se mostrava alegre, radiante com os novos amigos e em especial com outra doce menina, Laura. Bem que minha mãe já dizia que nada nessa vida é insubstituível. Nisso Laura veio a calhar.
Animada pelo progresso sentimental de meu pequenino, certo dia, regressando da escola, tratei de perguntar-lhe, muito discretamente, sobre Laura. Os olhos brilhavam entusiasmo enquanto ele descrevia seus dotes e qualidades. Mas repentinamente, como em um arroubo de melancolia, seus olhos se apagaram, se acinzentaram. Estávamos no carro e pelo espelho retrovisor pareceu-me uma lágrima de tristeza a escorrer-lhe pelos olhos. Olhei melhor, quase bati o carro, mas percebi, para minha felicidade, que não passava de um pequeno feixe de luz em sua face.
Embora não chorasse, é certo que ele sentia falta da garota. Lentamente levantou a cabecinha fitando-me, de trás do carro, pelo espelho e desabafou:
- É mamãe, a Fernanda não mudou de escola. Que pena! Que pena que não deu tempo!
“Não deu tempo? Não deu tempo de que?”, pensei. Curiosa, verbalizei a pergunta e ele, para meu desespero, completou o desabafo anterior:
- Não deu tempo da gente se casar, mamãe!
Quase enfartei. Senti um formigamento no braço e uma trincada no peito. Meus olhos ficaram turvos e por uma fração de segundo percebi que em algum momento no futuro próximo  aquele serzinho não será mais meu. Será? Perguntei-me, afinal ainda só tem quatro anos.
Meio sem fôlego, engasgada pela saliva, procuro avidamente o que lhe dizer. Sim, pois o momento não poderia ficar sem uma resposta. Mas dizer o quê? Antes tivesse pensado mais e melhor, pois o calor e o desconforto daquele instante me fizeram atirar-lhe as seguintes palavras:
- Casar com a Fernanda pra quê? Você pode se casar com a mamãe!
“Nooossa, que idiota!”, pensei. Cheguei a corar diante do tamanho despautério. Ainda bem que ele ainda não percebe esse tipo reação. Contudo, há coisas que a vida trata de ensinar ela mesma, sem as intervenções nada inteligentes das mães. Com lucidez e serenidade meu filho retruca, quase me repreendendo:
- Mas mamãe, eu não posso me casar com você porque você já tem um papai!
Faz sentido. De fato já sou casada com o pai dele. Mas não desisto de meu filho. Jamais poderia perder a batalha para a minha primeira adversária, Fernanda. Lembro-me de Laura e ensino a meu filho, desta vez muito mais sabiamente, que a fila anda e digo-lhe:
- Meu amor, a Fernanda é passado.
Ele enfim concorda e assente dizendo:
- É ... ela já era.